A Academia Valinhense de Letras e Artes (AVLA) foi tema de uma matéria especial publicada na revista Cultura em 1 Minuto (nº 72 – A travessia continua), de 26 de junho de 2026, editada pelo jornalista Adriano Meneses e vinculada ao Diário Campineiro.
A reportagem apresenta um panorama da produção literária e artística de Valinhos e destaca a trajetória da Academia, que, em cinco anos de atuação, consolidou-se como um espaço de valorização da memória, da diversidade cultural e do incentivo às letras e às artes.
O texto também evidencia o lançamento do projeto Palavra Viva, iniciativa gratuita da AVLA que convida escritores residentes em Valinhos a apresentarem suas obras e compartilharem suas histórias. A matéria reúne falas do presidente da AVLA, André Luiz Rosa, da vice-presidente Cida Reis, e dos membros acadêmicos Laís Helena Aloise e Vagner Alves, compondo um olhar sobre o papel dos escritores na construção da identidade cultural valinhense e sobre a importância de preservar as narrativas que ajudam a contar a história da cidade.
Leia a transcrição da matéria:
AS VOZES QUE FLORESCEM ENTRE OS PARREIRAIS
Ao lançar o projeto Palavra Viva, a Academia Valinhense de Letras e Artes transforma escritores da cidade em protagonistas de uma memória coletiva que continua sendo escrita.
Há cidades que se contam por monumentos. Outras, por avenidas, fábricas ou personagens ilustres. Valinhos, conhecida nacionalmente pelos parreirais que ajudaram a moldar sua identidade, parece estar descobrindo uma outra forma de narrar a própria existência: pelos livros.
Longe das vitrines editoriais das capitais e dos grandes festivais literários, a cidade abriga um movimento silencioso que cresce entre bibliotecas, escolas, centros culturais e mesas de cozinha, onde poemas, contos e memórias ganham forma depois do expediente. São escritores que observam o cotidiano, registram histórias familiares, inventam personagens, preservam lembranças e transformam a experiência local em literatura.
É desse terreno fértil que nasce o Palavra Viva, iniciativa gratuita da Academia Valinhense de Letras e Artes (AVLA) que convida autores residentes no município a apresentarem suas obras. Mais do que um projeto cultural, a proposta surge como um gesto de reconhecimento. Um convite para que a cidade olhe para aqueles que, muitas vezes de forma discreta, vêm escrevendo sua memória contemporânea.
A iniciativa chega em um momento simbólico. A AVLA completa cinco anos de atuação justamente quando Valinhos celebra o primeiro ano de vigência da lei que instituiu o Dia do Escritor Valinhense, comemorado em 25 de julho. Pela primeira vez, a cidade não apenas abriga escritores: ela os reconhece oficialmente como parte de seu patrimônio cultural.
Em tempos marcados pela velocidade das redes sociais e pela dispersão da atenção, a criação de espaços dedicados à literatura local assume um significado que ultrapassa a celebração artística. Trata-se também de preservar narrativas, registrar experiências e fortalecer os vínculos entre uma comunidade e sua própria história.
"É objetivo da AVLA o resgate dos artistas e escritores que já fizeram história em Valinhos, a valorização de quem escreve a história neste momento e o incentivo às gerações que ocuparão este espaço das letras e artes em futuro próximo", afirma o escritor, palestrante e cofundador da Academia, André Luiz Rosa.
A imagem é reveladora. Porque uma cidade não é feita apenas de ruas, prédios ou estatísticas. Ela também é construída pelas histórias que escolhe contar sobre si mesma. E toda história precisa de quem a escreva.
Fundada em maio de 2021, a Academia Valinhense de Letras e Artes nasceu para ocupar uma ausência histórica. Enquanto cidades vizinhas já possuíam instituições dedicadas à preservação e ao estímulo das artes e da literatura, Valinhos ainda não contava com um espaço que reunisse seus criadores em torno de uma missão comum.
A poetisa e cofundadora Cida Reis lembra que esse vazio foi o impulso para a criação da entidade. "Faltava Valinhos", resume.
Cinco anos depois, a Academia reúne quarenta membros vitalícios entre escritores, músicos, artistas plásticos, fotógrafos, cineastas, educadores e agentes culturais. Mais do que uma associação, tornou-se um ponto de encontro entre diferentes gerações e experiências.
Essa diversidade é apontada pela escritora e educadora Laís Helena Aloise como uma das principais forças da instituição.
"Nossa Academia reúne pessoas de origens e trajetórias muito diferentes. Isso não é apenas um detalhe; é a nossa maior riqueza. Cada um traz consigo costumes, formas de ver o mundo, saberes e criações que se encontram aqui. Essa mistura faz com que a cultura local ganhe novas cores, sons, narrativas e formas de expressão."
Num momento em que o debate sobre diversidade frequentemente se limita às grandes capitais, a fala de Laís aponta para uma realidade muitas vezes ignorada: a pluralidade também floresce nas cidades médias, nos territórios onde diferentes histórias se cruzam e produzem novas formas de criação.
Essa vocação para reunir vozes distintas aparece na própria estrutura da Academia. Cada uma de suas quarenta cadeiras homenageia uma personalidade ligada à história cultural de Valinhos e região. São compositores, fotógrafos, artistas visuais, escritores e fomentadores culturais que permanecem presentes por meio de seus legados.
Há algo de simbólico nessa arquitetura da memória. Cada cadeira funciona como uma ponte entre tempos distintos, conectando aqueles que construíram a identidade cultural da cidade aos que continuam ampliando essa narrativa.
Ao longo de sua trajetória, a AVLA tem investido justamente nesse diálogo entre tradição e renovação. Realizou exposições dedicadas ao artista e arquiteto Flávio de Carvalho, promoveu concursos literários voltados a participantes de todas as idades, organizou saraus, lançou livros e publicou a antologia Entre Letras e Artes, reunindo a produção de seus acadêmicos.
A entidade também passou recentemente por um processo de renovação de seus quadros, recebendo novos integrantes de diferentes áreas criativas. Ao mesmo tempo, enfrentou a despedida do escritor Sebastião Maria, cidadão honorário de Valinhos, cuja cadeira permanece aberta para futura sucessão — um lembrete de que a cultura é um organismo vivo, em constante transformação.
O reconhecimento institucional veio em 2025, quando a Academia foi declarada de Utilidade Pública pelo município. No mesmo período, foi aprovada a criação do Dia do Escritor Valinhense, iniciativa proposta pelo vereador e agente cultural Vagner Alves.
"Mais do que celebrar escritores, a lei incentiva a leitura, estimula a criação literária e fortalece o patrimônio cultural valinhense."
Mas talvez a principal conquista não esteja nas leis ou nos títulos. Ela aparece em algo menos visível e mais duradouro: a formação de uma comunidade.
O Palavra Viva nasce justamente desse entendimento. Ao abrir espaço para que autores apresentem suas obras, o projeto cria uma espécie de mapa afetivo da cidade. Cada texto enviado revela um olhar particular sobre o território. São memórias familiares, relatos de infância, ficções, poemas e reflexões que ajudam a compor um retrato múltiplo de Valinhos.
Num país acostumado a concentrar sua produção cultural em poucos centros urbanos, iniciativas como essa lembram que a literatura continua florescendo em lugares onde nem sempre os holofotes chegam.
Entre os parreirais que ajudaram a tornar Valinhos conhecida e as páginas que agora começam a ganhar novos leitores, existe um território comum: o da imaginação.
É nele que uma cidade aprende a reconhecer suas próprias vozes. E descobre que preservar histórias é, também, uma forma de construir futuro.
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